Os capítulos 4 a 7 do Primeiro Livro de Samuel destaca-se pelo protagonismo da Arca da Aliança, em detrimento de personagens humanos como o profeta Samuel, que não é mencionado ativamente até o capítulo 7.
Nestes capítulos, observamos a transição de um Israel desobediente e espiritualmente decadente para um povo arrependido e renovado pela ação divina.
A Arca, símbolo da presença do SENHOR, é tomada pelos filisteus, demonstrando que Deus não se deixa manipular por rituais vazios.
Esses capítulos retratam a perda da Arca, a humilhação do deus filisteu Dagom, as pragas que assolam as cidades inimigas, a devolução da Arca a Israel e, finalmente, a liderança restauradora de Samuel, que conduz o povo ao arrependimento.
A narrativa é carregada de lições teológicas sobre a soberania divina, a santidade do culto e o arrependimento genuíno.
Neste artigo, faremos uma exposição sistemática e detalhada de cada um dos quatro capítulos, divididos em seis tópicos fundamentais.
Cada tópico irá explorar os eventos, significados e aplicações espirituais contidos no texto bíblico, sempre embasado na Bíblia Sagrada e enriquecido com comentários teológicos relevantes.
A derrota de Israel e a captura da Arca (1º Samuel 4)
O capítulo 4 inicia-se com o povo de Israel sendo derrotado pelos filisteus em Ebenézer, perdendo cerca de quatro mil homens (1Sm 4:2).
Diante dessa tragédia, os anciãos de Israel decidem trazer a Arca da Aliança de Siló, esperando que sua presença garantisse a vitória (v. 3).
Contudo, essa decisão não foi inspirada por arrependimento ou direção divina, mas por uma tentativa supersticiosa de manipular o poder de Deus.
Quando a Arca chega ao arraial, o povo se enche de euforia, e os filisteus, apesar do temor, se encorajam e voltam a lutar.
A segunda batalha resulta em uma derrota ainda maior para Israel, com a morte de trinta mil homens, incluindo Hofni e Finéias, filhos de Eli, e a captura da Arca (v. 10-11).
A narrativa deixa claro que a presença da Arca não substitui a obediência à vontade divina.
As consequências dessa derrota são sentidas profundamente: Eli, ao saber da morte dos filhos e da captura da Arca, cai para trás e morre (v. 18).
Sua nora, ao dar à luz, morre também, mas antes nomeia o filho de Icabô, dizendo: “Foi-se a glória de Israel” (v. 21-22). Essa expressão resume bem o significado espiritual da perda da Arca.
O poder de Deus entre os filisteus (1º Samuel 5)
O capítulo 5 mostra que, embora a Arca tenha sido capturada, Deus continua soberano.
Os filisteus levam a Arca para o templo de Dagom, em Asdode, como um troféu de guerra.
Contudo, na manhã seguinte, encontram a imagem de Dagom prostrada diante da Arca do SENHOR (1Sm 5:3).
Ao recolocá-la, no dia seguinte, encontram-na novamente prostrada, agora com a cabeça e as mãos cortadas (v. 4).
Esse episódio evidencia a supremacia do Deus de Israel sobre os falsos deuses. Dagom, tido como um poderoso deus nacional, é mostrado como impotente diante da presença do verdadeiro Deus.
Em vez de se arrependerem, os sacerdotes filisteus adotam superstições, recusando-se a pisar no limiar onde Dagom jazia (v. 5).
A mão do SENHOR pesa então sobre os habitantes de Asdode e das cidades vizinhas, enviando tumores (v. 6-9).
A cada mudança de localidade, as pragas acompanham a Arca, até que os filisteus decidem devolvê-la a Israel. O texto mostra que Deus não precisa de um exército para defender sua honra.
A devolução milagrosa da Arca (1º Samuel 6)
Apavorados pelos juízos divinos, os filisteus consultam seus sacerdotes e adivinhos para saber como devolver a Arca de maneira apropriada (1Sm 6:2).
Eles decidem enviá-la com uma oferta pela culpa: cinco tumores de ouro e cinco ratos de ouro, simbolizando a praga que os atingira (v. 4-5).
Essa prática reflete a tentativa pagã de apaziguar a divindade com representações do mal causado.
Para confirmar se os juízos eram realmente obra de Deus, fazem um teste: colocam a Arca sobre um carro novo puxado por duas vacas com cria, sobre as quais não tenha subido o jugo, tirando delas os seus bezerros.
Contra todo instinto, as vacas seguem diretamente rumo a Bete-Semes (v. 12), provando que era o SENHOR quem estava por trás dos acontecimentos.
Os israelitas de Bete-Semes recebem a Arca com alegria, oferecem sacrifícios ao SENHOR, mas cometem um erro fatal ao olhar para o interior da Arca (v. 19).
Como consequência, setenta homens são feridos por Deus, e o povo, temeroso, envia a Arca a Quiriate-Jearim (v. 21). A santidade de Deus não pode ser tratada com irreverência.
O arrependimento e a liderança de Samuel (1º Samuel 7:1-6)
A Arca é levada à casa de Abinadabe, em Quiriate-Jearim, onde permanece por vinte anos sob os cuidados de Eleazar (1Sm 7:1-2).
Nesse período, Israel começa a lamentar e buscar ao SENHOR, abrindo caminho para um avivamento espiritual. É nesse contexto que Samuel retorna como figura central da narrativa.
Samuel convoca o povo ao arrependimento verdadeiro, exortando-os a abandonar os deuses estranhos, como os baalins e os astarotes, e a voltar-se exclusivamente ao SENHOR (v. 3).
O povo atende ao chamado, destruindo seus ídolos e consagrando-se ao Deus de Israel (v. 4).
Em Mispa, o povo se reúne para jejuar, confessar pecados e renovar a aliança com Deus (v. 5-6). O ato de derramar água à terra simboliza humildade e arrependimento.
Este momento marca o início de um novo tempo espiritual em Israel, mediado por Samuel como profeta, sacerdote e juiz.
A intervenção divina e a vitória sobre os filisteus (1º Samuel 7:7-12)
Os filisteus, ao saberem da reunião em Mispa, marcham contra Israel (1Sm 7:7). O povo, agora consciente de sua fragilidade, clama a Samuel que interceda ao SENHOR.
Samuel oferece um cordeiro em holocausto e clama ao SENHOR, e Deus responde sobrenaturalmente (v. 9).
Durante o sacrifício, o SENHOR troveja com grande estampido contra os filisteus, aterrorizando-os e garantindo a vitória de Israel (v. 10).
Essa intervenção divina é uma clara demonstração de que a vitória não depende de força militar, mas da presença e do favor de Deus.
Em gratidão, Samuel ergue uma pedra e a chama de Ebenézer, que significa “Pedra de Ajuda”, declarando: “Até aqui nos ajudou o SENHOR” (v. 12).
Este marco é um lembrete perene da fidelidade divina e um convite à memória espiritual coletiva.
Samuel como juiz e o tempo de paz em Israel (1º Samuel 7:13-17)
A vitória contra os filisteus não apenas restabelece a moral de Israel, mas também inaugura um período de paz.
O texto afirma que os filisteus foram abatidos e não voltaram mais ao território de Israel durante os dias de Samuel (1Sm 7:13). A mão do SENHOR estava contra os inimigos, garantindo proteção ao povo.
As cidades que haviam sido tomadas foram restituídas a Israel, e a paz se estendeu também aos amorreus, antigos adversários (v. 14).
Este momento de estabilidade é resultado direto da renovação espiritual liderada por Samuel, cujo ministério restaurou a comunhão do povo com Deus.
Samuel assume então uma função de juiz itinerante, percorrendo Betel, Gilgal, Mispa e sua cidade natal, Ramá, onde edificou um altar ao SENHOR (v. 15-17).
Sua liderança combina ensino, julgamento e intercessão, mostrando um modelo de espiritualidade prática e eficaz.
Conclusão
Os capítulos 4 a 7 de 1º Samuel apresentam uma narrativa rica em elementos teológicos e históricos. O texto demonstra que a presença de Deus não pode ser instrumentalizada ou manipulada por rituais vazios.
A derrota de Israel foi resultado de sua desobediência e corrupção espiritual, e somente o arrependimento sincero poderia restaurar a relação com o SENHOR.
Por meio da Arca, Deus demonstra seu poder, tanto entre os filisteus quanto entre os israelitas, deixando claro que Ele é soberano sobre todas as nações e deuses.
Os acontecimentos narrados nos convidam a refletir sobre a reverência devida ao sagrado e a necessidade de uma fé viva e obediente.
Finalmente, vemos em Samuel um líder exemplar que guia o povo ao arrependimento, intercede diante de Deus e promove a paz e a justiça.
Estes capítulos mostram que o reavivamento espiritual é possível quando o povo reconhece seus pecados, volta-se a Deus com sinceridade e se submete à Sua vontade.
Referências Bibliográficas
BÍBLIA. Português. Bíblia de Estudos Almeida. Tradução de João Ferreira de Almeida. 2ª edição, São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.
MacDonald, William. Comentário bíblico popular. Antigo Testamento. 1ª edição, São Paulo: Mundo Cristão, 2004.