O Evangelho de Mateus apresenta Jesus como o Messias prometido, o Rei que ensina com autoridade divina e manifesta o Reino de Deus por meio de palavras e obras.
Os capítulos 7, 8 e 9 formam uma unidade teológica essencial, pois unem o encerramento do Sermão do Monte com uma sequência poderosa de milagres e encontros transformadores.
Neles, doutrina e ação caminham juntas, revelando quem é Jesus e como deve viver aquele que o segue.
Em Mateus 7, Jesus conclui o Sermão do Monte chamando seus ouvintes à responsabilidade espiritual, ao discernimento correto e à obediência prática.
O ensino não é meramente moral, mas profundamente espiritual, exigindo transformação interior. O foco recai sobre o juízo correto, a oração perseverante, o caminho estreito e a necessidade de edificar a vida sobre fundamentos sólidos.
Já os capítulos 8 e 9 demonstram que a autoridade ensinada por Jesus não era apenas verbal. Ele cura enfermos, liberta oprimidos, domina a natureza, perdoa pecados e chama pecadores ao discipulado.
Esses atos confirmam que o Reino de Deus havia chegado. Assim, Mateus revela um Messias que une verdade, poder e misericórdia, desafiando tanto a religiosidade vazia quanto a incredulidade humana.
O Juízo correto e a ética do Reino de Deus (Mateus 7)
Jesus inicia Mateus 7 advertindo contra o juízo temerário: “Não julgueis, para que não sejais julgados” (Mt 7.1).
No texto grego, o verbo krínō (Strong) não proíbe todo julgamento, mas condena o julgamento hipócrita e arrogante. Jesus não elimina o discernimento espiritual, mas denuncia a crítica que ignora a própria condição moral daquele que julga.
A famosa ilustração do argueiro e da trave (Mt 7.3-5) utiliza uma hipérbole pedagógica. O problema não é corrigir o irmão, mas fazê-lo sem antes tratar o próprio pecado.
A exegese mostra que Jesus exige autoexame, arrependimento e humildade como pré-requisitos para qualquer correção espiritual verdadeira.
O ensino é equilibrado com o versículo 6, que fala sobre não lançar “pérolas aos porcos”. Aqui, Jesus demonstra que o discernimento é necessário.
O Reino de Deus exige graça, mas também sabedoria espiritual. O cristão deve saber quando falar, como falar e para quem falar, sempre guiado pela oração e pelo Espírito Santo.
Oração, regra de ouro e o caminho estreito (Mateus 7)
Nos versículos 7 a 11, Jesus ensina sobre a oração perseverante: “Pedi, e dar-se-vos-á” (Mt 7.7). O tempo verbal grego indica ação contínua: pedir, buscar e bater sem cessar.
A promessa não é um “cheque em branco”, mas um convite à dependência constante de Deus, alinhada à sua vontade (1Jo 5.14).
A chamada Regra de Ouro (Mt 7.12) resume a Lei e os Profetas. Jesus a apresenta de forma positiva, indo além da ética da não agressão.
O Reino de Deus exige uma ética ativa, marcada pela misericórdia, empatia e amor prático. Essa é a expressão concreta da justiça superior ensinada no Sermão do Monte.
Em seguida, Jesus apresenta a metáfora das duas portas e dos dois caminhos (Mt 7.13-14). O caminho estreito simboliza o discipulado fiel, que exige renúncia, obediência e perseverança.
Já o caminho largo representa a vida guiada pelo prazer e pela autossuficiência. A teologia do texto aponta que a vida cristã autêntica não é popular, mas é a única que conduz à verdadeira vida.
Falsos profetas e o fundamento da obediência (Mateus 7)
Jesus alerta sobre os falsos profetas, que se apresentam como ovelhas, mas são lobos (Mt 7.15). A identificação não se dá pela aparência ou eloquência, mas pelos frutos.
O termo “frutos” refere-se tanto à conduta moral quanto ao conteúdo doutrinário, conforme Isaías 8.20.
A advertência se intensifica em Mateus 7.21-23, quando Jesus declara que nem todos os que dizem “Senhor, Senhor” pertencem ao Reino.
O verbo ginōskō (Strong-conhecer) indica relacionamento íntimo. A religião sem obediência e sem comunhão real com Cristo é rejeitada no juízo final.
A parábola dos dois fundamentos encerra o sermão. Ouvir e não praticar é construir sobre areia.
Ouvir e obedecer é edificar sobre a rocha. A rocha não é apenas a doutrina, mas a pessoa de Cristo. A obediência é a evidência visível de uma fé genuína, capaz de resistir às tempestades da vida.
A autoridade de Jesus sobre doenças e a criação (Mateus 8)
Mateus 8 inicia demonstrando que a autoridade ensinada por Jesus se manifesta em ações. A cura do leproso (Mt 8.1-4) revela o poder de Cristo sobre a impureza.
Jesus toca o intocável, algo impensável na cultura judaica. O verbo katharízō (Strong-purificar) indica restauração total, física e espiritual.
A fé do centurião (Mt 8.5-13) contrasta com a incredulidade de Israel. Um gentio reconhece a autoridade de Jesus, entendendo que sua palavra é suficiente.
Essa narrativa antecipa a inclusão dos gentios no Reino e revela que a fé verdadeira não depende de privilégios religiosos, mas de confiança genuína.
A autoridade de Jesus se estende à natureza (Mt 8.23-27). Ao acalmar a tempestade, Ele revela ser mais do que um mestre: é o Senhor da criação.
O medo dos discípulos contrasta com o domínio absoluto de Cristo. A aplicação teológica é clara: a presença de Jesus não elimina as tempestades, mas garante segurança em meio a elas.
Libertação, discipulado e rejeição (Mateus 8)
A libertação dos endemoninhados gadarenos (Mt 8.28-34) revela o poder de Cristo sobre o mundo espiritual.
Os demônios reconhecem Jesus como Filho de Deus e sabem que seu juízo virá. A narrativa demonstra que o mal reconhece a autoridade que muitos homens rejeitam.
O episódio também revela uma reação perturbadora: a cidade pede que Jesus vá embora. A perda econômica dos porcos foi considerada mais importante do que a libertação de dois homens.
Essa atitude expõe como interesses materiais podem levar à rejeição consciente do Salvador.
Entre esses relatos, Jesus ensina sobre o custo do discipulado (Mt 8.18-22). Segui-lo exige prioridade absoluta. O Reino de Deus não aceita adiamentos.
A teologia do discipulado em Mateus mostra que seguir Jesus é uma decisão radical, que redefine valores, prioridades e destino eterno.
Perdão, misericórdia e missão (Mateus 9)
Mateus 9 começa com a cura do paralítico, onde Jesus declara: “Estão perdoados os teus pecados” (Mt 9.2).
Aqui, Jesus revela sua autoridade divina para perdoar pecados. A cura física confirma uma realidade espiritual invisível. O Reino não trata apenas do corpo, mas da restauração completa do ser humano.
O chamado de Mateus e a refeição com publicanos e pecadores (Mt 9.9-13) demonstram a essência da graça.
Jesus não compactua com o pecado, mas se aproxima do pecador para curá-lo. A citação de Oséias 6.6 (“Misericórdia quero”) revela o coração de Deus, em contraste com o legalismo farisaico.
O capítulo encerra com uma sucessão de milagres e com a compaixão de Jesus pelas multidões (Mt 9.35-38).
Ele vê o povo como ovelhas sem pastor e convoca seus discípulos à oração pela seara. A missão nasce da compaixão. O Reino avança quando trabalhadores obedientes respondem ao chamado do Senhor.
Conclusão
Os capítulos 7, 8 e 9 de Mateus revelam um retrato completo de Jesus: Mestre da verdade, Senhor da criação, Médico das almas e Rei compassivo.
Seu ensino confronta o coração humano, exigindo obediência, discernimento e fé autêntica. Não há espaço para religiosidade vazia ou discipulado superficial.
A estrutura do texto mostra que a doutrina do Reino precisa ser acompanhada pelo poder do Reino.
Jesus não apenas ensina como viver; Ele capacita, restaura e transforma. Seus milagres confirmam sua identidade messiânica e revelam que o Reino de Deus já estava em ação no meio do povo.
Por fim, Mateus nos chama à decisão. Ou construímos sobre a rocha, ou sobre a areia. Ou seguimos pelo caminho estreito, ou escolhemos a porta larga.
Esses capítulos não são apenas um registro histórico, mas um convite vivo para confiar, obedecer e seguir a Cristo com todo o coração.
Referências Bibliográficas
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BÍBLIA. Português. Bíblia Strong: léxico hebraico, aramaico e grego. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2018.
MacDonald, William. Comentário bíblico popular. Antigo Testamento. 1ª edição, São Paulo: Mundo Cristão, 2004.