O Evangelho de Mateus apresenta Jesus como o Messias prometido, o Rei davídico que inaugura o Reino dos Céus.
Nos capítulos 4, 5 e 6, encontramos uma unidade teológica profunda: a preparação do Rei (capítulo 4), a constituição do Reino (capítulo 5) e a espiritualidade prática dos cidadãos desse Reino (capítulo 6). Esses capítulos formam o coração do ensino ético e espiritual de Jesus.
Mateus 4 descreve o início do ministério público de Cristo, marcado pela tentação no deserto, pelo chamado dos primeiros discípulos e pela proclamação do arrependimento.
Aqui, Jesus se revela como o verdadeiro Israel, fiel onde o antigo Israel falhou, cumprindo as Escrituras e resistindo ao diabo pela Palavra de Deus.
Já Mateus 5 e 6 fazem parte do chamado Sermão do Monte, considerado por muitos teólogos como a “constituição do Reino dos Céus”.
Nesse discurso, Jesus redefine justiça, piedade, relacionamento humano e dependência de Deus, conduzindo o leitor a uma espiritualidade profunda, interna e transformadora.
A tentação de Jesus e a vitória do filho obediente (Mateus 4:1–11)
O capítulo 4 inicia com Jesus sendo conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo diabo. O verbo grego peirazō (πειράζω – Strong) possui duplo sentido: testar e tentar.
Aqui, o Espírito Santo prova a fidelidade do Filho, enquanto Satanás tenta levá-lo ao pecado.
A tentação não visa descobrir se Jesus pecaria, mas revelar que Ele é moralmente perfeito e plenamente obediente.
O jejum de quarenta dias remete diretamente às experiências de Moisés e de Israel no deserto (Êx 24:18; Dt 8:2). Onde Israel murmurou, Jesus permaneceu fiel.
A primeira tentação apela à necessidade física, mas Jesus responde com Deuteronômio 8:3: “Não só de pão viverá o homem”, ensinando que a vida verdadeira depende da Palavra de Deus.
Nas demais tentações, Satanás distorce as Escrituras (Sl 91:11–12), mas Jesus responde corretamente com o texto bíblico em seu contexto. Isso revela um princípio exegético fundamental: a Escritura interpreta a Escritura.
A vitória de Cristo no deserto demonstra que o Reino de Deus não é estabelecido por atalhos, mas pela obediência perfeita à vontade do Pai.
O início do ministério na galileia e o chamado ao arrependimento (Mateus 4:12–17)
Após a prisão de João Batista, Jesus inicia seu ministério na Galileia, cumprindo Isaías 9:1–2. Mateus enfatiza o cumprimento profético para mostrar que Jesus é o Messias prometido.
A “Galileia dos gentios” simboliza que a luz do Reino alcança tanto judeus quanto não judeus.
A mensagem central de Jesus é clara e direta: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 4:17). O termo grego metanoeō (μετανοέω – Strong) significa mudança de mente, direção e propósito.
O arrependimento bíblico não é apenas emocional, mas uma transformação profunda do ser.
Teologicamente, o Reino dos Céus não se refere apenas a um lugar futuro, mas ao governo soberano de Deus manifestado na pessoa de Cristo.
O Rei está presente; portanto, o Reino está próximo. Essa proclamação exige resposta moral, espiritual e prática.
O início do ministério de Jesus revela que o Reino não começa com poder político, mas com transformação espiritual.
A luz que resplandece nas trevas aponta para a salvação que rompe a escuridão do pecado e da ignorância espiritual.
O chamado dos discípulos e o ministério integral de Jesus (Mateus 4:18–25)
Jesus chama pescadores comuns para uma missão extraordinária: “Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens” (Mt 4:19).
O chamado envolve abandono, obediência imediata e transformação de identidade. O discipulado bíblico é relacional antes de ser funcional.
O termo “seguir” (akoloutheō – Strong) implica compromisso contínuo, não apenas deslocamento físico.
Os discípulos são chamados para aprender o caráter de Cristo antes de exercerem ministério. Isso revela que, no Reino de Deus, o ser precede o fazer.
O ministério de Jesus é triplo: ensinar, pregar e curar (Mt 4:23). O ensino forma a mente, a pregação confronta o coração e a cura restaura o corpo.
Essa integralidade revela que o Reino de Deus alcança todas as dimensões da vida humana. As multidões seguem Jesus porque reconhecem autoridade, compaixão e poder.
Os milagres autenticam sua identidade messiânica, conforme Hebreus 2:3–4, confirmando que Ele é o Filho de Deus enviado para restaurar o que foi quebrado pelo pecado.
As bem-aventuranças: ocaráter do cidadão do Reino (Mateus 5:1–12)
O Sermão do Monte inicia com as bem-aventuranças, que descrevem o caráter daqueles que pertencem ao Reino dos Céus.
A palavra “bem-aventurado” (makários – Strong) indica felicidade profunda e aprovação divina, não dependente de circunstâncias externas.
Jesus começa com os “humildes de espírito”, revelando que o Reino pertence aos que reconhecem sua pobreza espiritual.
Isso confronta diretamente o orgulho religioso dos fariseus. O Reino não é para autossuficientes, mas para dependentes de Deus.
As bem-aventuranças são paradoxais: os que choram são consolados, os mansos herdam a terra, os perseguidos recebem o Reino.
Isso demonstra que os valores do Reino de Deus são radicalmente diferentes dos valores do mundo.
Teologicamente, essas declarações não são requisitos para salvação, mas evidências de uma vida transformada. Elas descrevem o caráter que o Espírito Santo produz nos que vivem sob o governo de Cristo.
A justiça do reino: lei, amor e santidade interior (Mateus 5:13–48)
Jesus afirma que não veio revogar a Lei, mas cumpri-la (Mt 5:17). O verbo plēroō (πληρόω – Strong) significa completar, levar à plenitude. Cristo cumpre a Lei tanto em obediência perfeita quanto em significado final.
A justiça do Reino precisa exceder a dos escribas e fariseus (Mt 5:20). Isso não se refere a quantidade de obras, mas à qualidade do coração.
A Lei é aprofundada: não basta não matar, é necessário eliminar a ira; não basta não adulterar, é preciso pureza interior.
Jesus trata de temas como ira, adultério, juramentos, vingança e amor aos inimigos.
O padrão do Reino é o amor sacrificial, refletindo o caráter do Pai. “Sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mt 5:48) aponta para maturidade espiritual, não impecabilidade absoluta.
Essa seção revela que o Reino de Deus é ético, transformador e profundamente espiritual, indo além da religiosidade externa para alcançar o coração humano.
A prática da justiça e a dependência total de Deus (Mateus 6)
Mateus 6 aborda a espiritualidade prática: esmolas, oração, jejum, dinheiro e ansiedade.
Jesus condena a religiosidade exibicionista e ensina que Deus vê o que é feito em secreto. A motivação correta é essencial no Reino.
A oração do Pai Nosso revela prioridades espirituais: a glória de Deus, o Reino, a vontade divina, a provisão diária, o perdão e a libertação do mal. Ela ensina dependência, comunhão e alinhamento com o céu.
Jesus também confronta o materialismo, afirmando que não se pode servir a Deus e às riquezas (mamōnas – Strong). A verdadeira segurança não está nos bens, mas na fidelidade do Pai celestial.
O capítulo encerra com o chamado à confiança: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça” (Mt 6:33). Essa é a essência da vida cristã: prioridade correta gera provisão divina.
Conclusão
Mateus 4, 5 e 6 revelam Jesus como o Rei obediente, o Legislador divino e o Mestre da vida espiritual.
Esses capítulos mostram que o Reino dos Céus não é apenas uma promessa futura, mas uma realidade presente para aqueles que se submetem ao governo de Cristo.
O resumo explicativo desses capítulos evidencia que o discipulado cristão envolve resistência espiritual, transformação de caráter e dependência total de Deus. A fé bíblica não é superficial, mas profunda, prática e integral.
Por fim, o ensino de Jesus nesses capítulos continua desafiando a Igreja contemporânea a viver não segundo os valores do mundo, mas segundo os princípios eternos do Reino de Deus, refletindo a glória do Pai em todas as áreas da vida.
Referências Bibliográficas
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MacDonald, William. Comentário bíblico popular. Antigo Testamento. 1ª edição, São Paulo: Mundo Cristão, 2004.