O Evangelho segundo Mateus inicia o Novo Testamento com uma abordagem profundamente teológica e histórica, apresentando Jesus Cristo como o cumprimento das promessas feitas a Israel.
Diferente de uma simples narrativa biográfica, Mateus constrói seu texto com o propósito claro de demonstrar que Jesus é o Messias prometido, o legítimo Filho de Davi e o verdadeiro Rei de Israel, conforme anunciado nas Escrituras do Antigo Testamento.
Os capítulos 1, 2 e 3 formam uma unidade temática que revela a identidade, a missão e a legitimação divina de Jesus.
Neles, encontramos a genealogia messiânica, o nascimento virginal, os acontecimentos da infância do Salvador e, por fim, a preparação espiritual do povo por meio da pregação de João Batista.
Cada episódio está intimamente ligado ao cumprimento profético, reforçando a soberania de Deus na história da redenção.
Este artigo apresenta um resumo explicativo e teológico de Mateus 1, 2 e 3, fundamentado na Bíblia, em comentários bíblicos confiáveis, na exegese textual e em referências cruzadas, com linguagem clara, profunda e acessível.
A genealogia de Jesus Cristo e sua legitimidade messiânica (Mateus 1.1–17)
Mateus inicia seu evangelho com a genealogia de Jesus Cristo, algo que pode parecer irrelevante ao leitor moderno, mas era essencial para os judeus do primeiro século.
Ao declarar: “Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (Mt 1.1), o evangelista estabelece, logo de início, a identidade messiânica de Jesus.
Ele é herdeiro das promessas feitas a Abraão (Gn 12.3) e legítimo sucessor do trono de Davi (2Sm 7.16).
A genealogia é organizada em três blocos de catorze gerações, recurso literário com forte simbolismo hebraico.
Essa estrutura demonstra que a história não é aleatória, mas conduzida pela providência divina, mesmo em períodos de infidelidade e exílio.
Do ponto de vista exegético, Mateus utiliza o verbo grego γενέσεως (genéseōs), que remete a “origem” ou “começo”, conectando Jesus à ideia de nova criação, em contraste com Adão (Gn 5.1).
A inclusão de mulheres como Tamar, Raabe, Rute e Bate-Seba revela a graça soberana de Deus, antecipando o alcance universal da salvação.
O nascimento virginal e o cumprimento profético (Mateus 1.18–25)
Após estabelecer a linhagem messiânica, Mateus descreve o nascimento de Jesus como um evento absolutamente singular.
Maria, ainda virgem e desposada com José, concebe do Espírito Santo (Mt 1.18), cumprindo a profecia de Isaías 7.14: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho”. O termo hebraico ‘almáh, traduzido na Septuaginta por parthénos (virgem), sustenta a interpretação messiânica adotada por Mateus.
José é apresentado como “justo” (díkaios), termo que, no contexto bíblico, indica alguém alinhado à vontade de Deus.
Sua decisão de não expor Maria publicamente revela tanto sua obediência à Lei quanto sua misericórdia. A intervenção angelical confirma a origem divina da criança e atribui-lhe o nome Jesus (Yeshua), que significa “O Senhor salva” (Mt 1.21).
Teologicamente, o nascimento virginal é essencial para a cristologia bíblica. Ele garante que Jesus é plenamente humano, nascido de mulher, e plenamente divino, gerado pelo Espírito.
O título Emanuel (“Deus conosco”) não é apenas simbólico, mas expressa a encarnação real de Jesus na história humana, conforme João 1.14 e Colossenses 2.9.
A visita dos magos e a rejeição do Rei (Mateus 2.1–12)
O capítulo 2 apresenta um contraste marcante entre a adoração sincera dos gentios e a hostilidade das autoridades judaicas.
Os magos do Oriente, provavelmente sábios gentios versados em astronomia e profecias, reconhecem o nascimento do “Rei dos judeus” (Mt 2.2).
A estrela, possivelmente um sinal sobrenatural, ecoa a profecia de Números 24.17: “Uma estrela procederá de Jacó”.
Herodes, por outro lado, reage com temor e violência. Embora informado corretamente pelos escribas sobre o local do nascimento do Messias (Mq 5.2), ele não busca adorar, mas eliminar o possível rival.
Essa atitude revela um coração endurecido e antecipa a rejeição oficial de Jesus por parte da liderança de Israel.
Os presentes oferecidos — ouro, incenso e mirra — possuem profundo significado teológico. O ouro aponta para a realeza de Cristo, o incenso para sua divindade e a mirra para seu sofrimento redentor.
A adoração dos magos simboliza a inclusão dos gentios no plano salvífico, cumprindo promessas como Isaías 60.6 e antecipando a Grande Comissão (Mt 28.19).
A fuga para o Egito e o Messias perseguido (Mateus 2.13–18)
A fuga da família para o Egito revela que o Messias não entra na história humana em um ambiente idealizado, mas em meio à perseguição e ao perigo.
A ordem angelical a José demonstra novamente a direção soberana de Deus. Mateus interpreta esse evento como cumprimento de Oséias 11.1: “Do Egito chamei o meu Filho”, aplicando tipologicamente a história de Israel à pessoa de Jesus.
O massacre dos meninos de Belém, ordenado por Herodes, cumpre Jeremias 31.15 e revela a profundidade da maldade humana diante da ameaça do reinado divino.
Raquel, figura simbólica de Israel, chora por seus filhos, apontando para o sofrimento coletivo causado pela rejeição do Messias.
Exegeticamente, esse episódio reforça a identidade de Jesus como o verdadeiro Israel. Assim como a nação passou pelo Egito, pelo deserto e pela provação, Cristo revive essa trajetória de forma perfeita.
Ele é o Filho obediente que triunfa onde Israel falhou, preparando o caminho para a redenção definitiva.
Nazaré, humildade e o Messias desprezado (Mateus 2.19–23)
Após a morte de Herodes, José é instruído a retornar, mas estabelece-se em Nazaré, na Galileia.
Mateus afirma que isso ocorreu “para que se cumprisse o que fora dito pelos profetas: Ele será chamado Nazareno” (Mt 2.23).
Embora não haja uma citação direta no Antigo Testamento, o sentido profético é claro: o Messias seria desprezado.
Nazaré era uma vila insignificante, vista com desprezo, como expressa Natanael: “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?” (Jo 1.46).
Assim, o título “Nazareno” tornou-se sinônimo de rejeição, alinhando-se com Isaías 53.3: “Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens”.
Teologicamente, esse detalhe reforça a lógica do Reino de Deus, que se manifesta na humildade e não no prestígio humano.
O Rei prometido cresce longe dos centros de poder, identificando-se com os marginalizados. Esse padrão se reflete em todo o ministério de Jesus e desafia as expectativas humanas sobre autoridade e glória.
João Batista, o Reino dos Céus e o batismo de Jesus (Mateus 3)
Mateus 3 marca a transição para o ministério público de Jesus. João Batista surge como o precursor profetizado em Isaías 40.3, convocando o povo ao arrependimento.
Sua mensagem central — “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 3.2) — anuncia a iminência da intervenção divina na história.
O termo “reino dos céus”, característico de Mateus, refere-se ao governo soberano de Deus reconhecido pelos homens.
João confronta fariseus e saduceus, destacando que a verdadeira conversão exige frutos visíveis. A descendência de Abraão não garante salvação; é necessária transformação interior.
O batismo de Jesus, embora sem pecado, possui profundo significado redentivo. Ao dizer que era necessário “cumprir toda a justiça” (Mt 3.15), Jesus se identifica com os pecadores e antecipa sua obra substitutiva.
A manifestação trinitária — o Filho batizado, o Espírito descendo e o Pai falando — confirma oficialmente Jesus como o Filho amado e inaugura seu ministério messiânico.
Conclusão
Os capítulos 1, 2 e 3 do Evangelho de Mateus apresentam um retrato teológico robusto e coerente da identidade de Jesus Cristo.
Desde sua genealogia até seu batismo, cada detalhe revela que Ele é o cumprimento fiel das promessas divinas, o Messias esperado e o Rei legítimo do Reino dos Céus. Nada ocorre por acaso; tudo está sob a direção soberana de Deus.
Ao mesmo tempo, Mateus mostra que o caminho do Messias é marcado por humildade, rejeição e sofrimento.
Jesus nasce em simplicidade, é perseguido desde a infância e cresce em um lugar desprezado. Contudo, é exatamente nesse caminho que se manifesta o poder redentor de Deus, que transforma a fraqueza em instrumento de salvação.
Estudar Mateus 1, 2 e 3 é mais do que conhecer fatos históricos; é compreender o coração do evangelho.
Esses capítulos convidam o leitor a reconhecer Jesus como Senhor, a responder com arrependimento e fé, e a submeter-se ao Reino dos Céus, que continua presente e atuante na história humana.
Referências Bibliográficas
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BÍBLIA. Português. Bíblia Strong: léxico hebraico, aramaico e grego. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2018.
MacDonald, William. Comentário bíblico popular. Antigo Testamento. 1ª edição, São Paulo: Mundo Cristão, 2004.