Os capítulos 5 a 8 de Cantares de Salomão destacam o auge do diálogo amoroso entre a Sulamita e seu amado, trazendo uma rica simbologia do amor conjugal em um contexto poético.
Nesta passagem, vemos uma íntima jornada emocional, repleta de expressões emocionais e poéticas — elementos essenciais para uma teologia do afeto humano.
A leitura desses capítulos nos revela, além do retrato de um amor intenso, uma mensagem espiritual que muitos teólogos interpretam como figura do amor de Cristo pela igreja.
Esses versos, embora poéticos, estão ancorados em realidades culturais e religiosas do Oriente Médio antigo, imprimindo-lhes densidade simbólica.
Este artigo apresenta um resumo explicativo desses capítulos, dividido em seis tópicos-chave que iluminam aspectos teológicos, literários e práticos do texto bíblico.
O sonho perturbador da Sulamita (Cantares 5:1–8)
A narrativa inicia com o esposo declarando que “Já entrei no meu jardim, minha irmã, noiva minha…” (5:1), simbolizando a consumação íntima do amor.
Ele celebra a proximidade emocional e física, estabelecendo um clima de intimidade espiritual e amor afetivo.
A Sulamita, porém, relata um sonho inquietante: ouviu seu amado chamando, mas hesitou, demorou a abrir a porta, ele partiu, e ela foi encontrada ferida pelos guardas (5:2–8).
O cenário sugere sua alma angustiada e a fragilidade do contato afetivo. Essa dor serve de alerta sobre vigilância emocional no relacionamento: mesmo quando a aparência de segurança estás presente, a vulnerabilidade persiste.
Teologicamente, o episódio também pode representar a separação da humanidade de Cristo – o amado bate, mas dormimos e demoramos a responder.
A “porta fechada” é a oportunidade perdida na busca de Deus. Os guardas que ferem a Sulamita simbolizam, para muitos, a crítica social e até espiritual enfrentada quando a alma aberta revela seu amor verdadeiro.
Aplicado à vida conjugal, esse trecho ensina a importância da sensibilidade emocional — de “abrir a porta” sem hesitação.
Comunicar o amor, mesmo em momentos difíceis, evita rupturas. O sonho serve de metáfora para cultivar o diálogo, recapacitar sobre emoções e reconhecer quando o coração chama, mas a alma dorme.
O elogio apaixonado da Sulamita (Cantares 5 e 6)
Após a experiência traumática, vêm perguntas das “filhas de Jerusalém”: “Que é o teu amado mais do que outro amado…?” (5:9). Esse questionamento abre espaço para um solene hino de amor e admiração.
A Sulamita responde descrevendo seu amado: ele é “o mais distinguido entre dez mil” (5:10), com cabelos como cachos de palmeira, olhos de pomba, e voz doce. Cada metáfora poética fortalece a ideia de perfeição e presença.
No ponto de vista teológico, esse louvor tem sido lido como metáfora de Cristo: amado perfeito, símbolo de amor querido e desejado.
A construção exaltada — cabeça de ouro, pernas colunas de mármore — pode representar atributos divinos (glória, beleza moral, fidelidade).
Mesmo enquanto louva, a Sulamita reafirma sua escolha: “Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu” (6:3), ecoando o vínculo de aliança.
Para o leitor moderno, esse tópico ressalta a importância de valorizar as qualidades do parceiro.
No casamento, reconhecimento mútuo gera segurança emocional e fome de presença. O elogio sincero nutre a admiração e fortalece o vínculo.
Salomão entra em cena: uma segunda investida (Cantares 6)
Depois do hino da Sulamita, Salomão retoma o diálogo e faz seus próprios elogios, comparando-a a Tirza, Jerusalém, como “um exército com estandartes” (6:4).
Sua fala gira em torno do valor e beleza da mulher, representando o desejo contínuo. O texto mostra a reciprocidade do ver o outro com olhos de afeto.
A jovem responde com discrição: ela conta ter descido ao “jardim das nogueiras” (6:11), sugerindo experiência de cuidado e intimidade rural. Aqui, vemos um relato multifacetado: paixão, carinho e memória afetiva.
Teologicamente, Salomão simboliza a manifestação pública do amor — valores do reino trazidos ao mundo, ao passo que a Sulamita representa a igreja humilde que recusa figuras institucionais ou títulos.
A resposta evasiva ao convite dele revela que o afeto verdadeiro não busca posição, mas identidade mútua e livre.
No campo prático, esse tópico incentiva refletir sobre equilíbrio entre posição e essência.
Em relacionamentos, o reconhecimento deve vir sem pressa ou imposição. A beleza cuidadosa se confirma nos gestos delicados e não em adornos vazios.
Elogios e passeio campestre e preservação do mistério (Cantares 7 e 8)
No capítulo 7, os elogios continuam num crescendo sensual. A descrição física prossegue com detalhes anatômicos: pescoço como torre de marfim, seios como gazelas, beijos como vinho (7:1–9).
A sensualidade aqui é celebrada, não ocultada — reflexo de uma aurora de afeto integral: corpo, alma e espírito, “Eu sou do meu amado” (7:10).
O amado aparece para buscá-la e convida-a ao campo: “passemos as noites nas aldeias” (7:11).
Ela concorda, sugerindo uma nova etapa de relacionamento — mais tranquila, simples e reservada.
O passeio por vides, romeiras e mandrágoras expressa a promessa de um amor amadurecido.
Ela pede que ele seja como irmão, para que pudesse beijá-lo sem vergonha (8:1). O gesto reflete restrições culturais — o afeto só era permitido para parentes.
Essa tensão entre norma social e desejo legítimo aponta a importância das convenções, mas também revela a força do amor quando toca o coração.
O clímax do compromisso e a reafirmação da aliança (Cantares 8)
O capítulo 8 culmina num momento de profunda aliança. Sulamita compara seu amado a um selo grave sobre o coração (8:6), símbolo de marca indelével.
O amor “forte como a morte” (8:6) aparece como invencível, inabalável. Rios não apagam o amor — metáfora de resiliência diante da adversidade (8:7).
Em seguida, o diálogo trata da nova geração. A “irmãzinha” prestes a casar precisa decidir como será seu dote.
A Sulamita afirma ter sido “um muro”, fiável, e seus seios como torres — sinal de honra e maturidade (8:10).
Na prática, esse clímax encoraja casais a criar compromissos firmes, marcas afetivas profundas e heranças espirituais para futuras gerações.
A segurança conjugal nasce da fidelidade, presença e decisão consciente de pertencer ao outro.
Conclusão
Ao percorrer os capítulos 5 a 8, percebemos a jornada íntima da Sulamita: sonho, angústia, hino de louvor, recusa à opressão e afirmação de aliança.
É um testemunho poético do amor humano encarnado nas relações conjugal e uma analogia poderosa do amor divino.
A mensagem final convida à vigilância — portas abertas, coração alerta; à celebração — elogios genuínos nutrem a vida a dois; e à construção de alianças — vínculos seguros, maduros e permanentes.
O amor bíblico aqui revelado fortalece a esperança conjugal e espiritual.
Que este resumo explicativo inspire leitores, estudiosos e líderes a aprofundar a compreensão teológica do casamento, vendo em Cantares de Salomão uma rica fonte de afeto, aliança e fidelidade — para aplicar na vida prática e na edificação da fé.
Referências Bibliográficas
BÍBLIA. Português. Bíblia de Estudos Almeida. Tradução de João Ferreira de Almeida. 2ª edição, São Paulo:Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.
MacDonald, William. Comentário bíblico popular. Antigo Testamento. 1ª edição, São Paulo: Mundo Cristão, 2004.